Segunda-feira, 22 de Junho de 2009
Lamento

 

Senhor doutor, como é que ele está?

 

Ele está em muito mau estado.

 

É o quê ao certo?

 

Desenvolveu um problema do foro profissional.

 

Mas sofre de quê? Stress?

 

Não. Sofre de arquitectura. Apresenta todos os sintomas: óculos de massa, discurso repetitivo sobre a luz de lisboa e abusa um bocadinho da palavra “apropriar”. Ele está numa condição muito precária. Está a sufocar devagarinho. Ouça lá aqui ao pé.

 

Então pq é q não lhe tiram a gola alta?

 

Já tentámos, mas não sai. Usa-a há tanto tempo q o tecido da gola se fundiu com a derme. É impossível remover a gola sem remover o pescoço.

 

Tssshhhh.

 

E se removermos o pescoço não há maneira de conseguir fazer a ligação da cabeça ao resto do corpo. É muito complicado. Há uma equipa no estados unidos a trabalhar nisso, mas...

 

...ainda não está muito desenvolvido?

 

Até está, mas é muito longe.

 

E agora?

 

Agora o q podemos fazer é criar um choque cultural. Vamos pô-lo a ouvir quim barreiros o dia todo, dar-lhe chouriço às refeições e encher o quarto de bibelôs.

 

Mas isso não o perturba?

 

Perturba, mas é isso ou o pescoço. Lamento.



publicado por José às 00:44
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Domingo, 21 de Junho de 2009
Fuck You

Look inside,

Look inside,
Your tiny mind.
Then look a bit harder,
cause we're so uninspired.
So sick and tired.
Of all
The hatred you harbor,
so you say
It's not okay to be gay,
Well I think
You're just evil.
You're just some racist.
Who can't tie my laces,
You're point of view
Is medievil.

Fuck you, fuck you
Very, very much.
Cause we hate
What you do
And we hate
Your whole crew
So please
Don't stay in touch,
Fuck you, fuck you
Very, very much
Cause your words
Don't translate
And it's getting
Quite late
So please
Don't stay in touch.

Do you get,
Do you get
A little kick out.
Of being small minded
You want to be
Like your father
His approval your after
Well that's not how
You'll find it
Do you
Do you really enjoy
Living a life
That's so hateful
Cause there's a hole
Where your soul
Should be
You're losing
Control of it
And it's really
Distasteful

Fuck you, fuck you
Very, very much
Cause we hate
What you do
And we hate
Your whole crew
So please
Don't stay in touch

Fuck you, fuck you
Very, very much
Cause your words
Don't translate
And it's getting
Quite late
So please
Don't stay in touchLook inside
Look inside
Your tiny mind
Then look a bit harder
Cause we're so uninspired
So sick and tired
Of all
The hatred you harbor

Fuck you, fuck you
Very, very much
Cause we hate
What you do
And we hate
Your whole crew
So please
Don't stay in touch

Fuck you, fuck you
Very, very much
Cause your words
Don't translate
And it's getting
Quite late
So please
Don't stay in touch

 

http://www.fubiz.net/2009/06/19/lily-allen-fuck-you/


publicado por José às 22:48
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Terça-feira, 15 de Fevereiro de 2005
Casinha Ikea
"ai gostas de design? Então toma lá"

O armário Vätern bateu-lhe de raspão na cabeça.

"nem penses tocar nesse candeeiro"

O candeeiro Jelken bateu-lhe em cheio na cabeça.

Sem contemplações, todos os móveis lhe foram atirados para cima. Os modos violentos do marido tinham atingido um grau de bom gosto sem precedentes. A ordem dos objectos atirados era quase perfeita. Por entre as lágrimas de dor sairam algumas de orgulho. Estava a chegar um nível que ela nunca imaginara possível. Em breve iria ultrapassá-la e nessa altura ela não faria qualquer sentido na vida dele. Ficou ansiosa e com medo do que poderia vir. Ajoelhou-se a seus pés e pediu-lhe desculpa. Num acesso de arrependimento e carinho, enquanto lhe deixava cair em cima uma mesa Forsby, disse-lhe que não se preocupasse que ia ficar tudo bem porque acima de tudo a amava muito.


publicado por José às 03:24
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Quinta-feira, 20 de Janeiro de 2005
Até breve, ou talvez não.
Atenção: este pequeno texto está cheio de nãos. São 8, sem contar com o título.

Não estou a conseguir escrever por dois tipos de razões, umas que não interessam e outras que nem sei. Não sei se nunca mais vou afixar aqui um texto, talvez sim talvez não, mas não nos próximos tempos. Não vou apagar o blog, desta vez não pode ser até porque há textos que não tenho comigo. Obrigado a todos por terem aparecido e por continuarem a aparecer apesar da ausência sem qualquer justificação.

Beijinhos e abraços,

corrupto.


publicado por José às 01:37
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Quarta-feira, 19 de Janeiro de 2005
Finalmente
O pai dissera-lhe uma vez que não queria ser enterrado. Entre caixões e coroas de flores folheava o catálogo das rendas, das madeiras e das velas. A cremação não lhe agradava a ele. Ter o pai dentro de um frasco era desconfortável, além disso era alérgico ao pó. Já tinha chegado o que passara com ele enquanto vivo. Na última página do catálogo deparou-se com a novidade. Os defuntos entregues em CD. Chamou o empregado e confrontou-o com a brincadeira de mau gosto. O empregado sorriu e disfarçou o sorriso. O empregado ajeitou a gravata. O empregado olhou-o nos olhos e transpirou um bocadinho porque o coração acelerou inesperadamente. O empregado esqueceu-se do que ele tinha perguntado. Furioso, o rapaz repetiu a pergunta. Foi-lhe explicado que não era uma brincadeira. O novo método processava o cadáver de maneira a criar um ficheiro informático. A personalidade do defunto seria entregue em formato digital gravado num CD com toda a vida discriminada em layers não editáveis. Uma para cada faceta de personalidade. Tentou explicar ao empregado que neste caso não seria preciso um CD, uma disquete era suficiente. Lamentou a indisponibilidade do serviço. Pagou e apertou a mão suada do empregado. O CD seria entregue em casa dentro de meia dúzia de horas. Meia dúzia de horas para finalmente perceber.


publicado por José às 02:40
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Terça-feira, 4 de Janeiro de 2005
Textozito atrasado
“Eu cá, só quero é cobrir”. A frase que abriu o jantar de Natal vinha da cabeceira da mesa, da boca do avô. A garfada de couves com bacalhau impediu-o de responder à censura da filha. Mesmo de boca vazia não o faria. Ao fundo ouvia-se fechar a porta da cozinha, chegava a parte atrasada da família. Beijos, olás, cadeiras a arrastar, coisas a tilintar por aqui e por ali e o avô a fazer xixi. Ninguém reparou. A família atrasada tinha 2 crianças adoráveis, uma com 12 anos e outra com 5. A mais pequena era conhecida por saber mexer na net desde os três anos, a mais velha era conhecida por não se saber nada do que pensava, se não fossem as notas altas seria dada como deficiente mental, dizia-lhe a tia à laia de brincadeira, falava pouco e fugia de toda a gente, menos do avô. As conversas diluiam-se, não havia um assunto que dominasse sobre os outros.

A criança pequena deu um gritinho. O que é q ela disse? Perguntou a avó. “e-bay”, respondeu o pai com um sorriso merdoso. “o que é isso?, sorriu ainda mais merdosamente e começou a explicar o que era para uma plateia completamente desinteressada. “Eu não percebo para que é que serve isto da união europeia”, disse o tio “roubam-nos as pescas, a agricultura, para quê? Isto serve para quê?” O avô arrotou, a pequena disse e-bay o padrinho começou a explicar que lá em casa só consegue dormir com botija de água quente e meias de lã, o avô disse que ele precisava era de uma mulher, a rapariga calada olhou para a mesa. Lembrou-se do dia em que abriu os ficheiros temporários do computador do padrinho, cheios de pornografia gay. Não a chocou, fez sentido. Sentia compaixão por ele, gostava que tivesse coragem para admitir o que sentia. Se um dia ela própria tivesse coragem para falar ia ajudá-lo, quanto mais não fosse a apagar os rastos que deixava no portátil. Os gritinhos sucediam-se, e-bay, e-bay, e-bay, seguidos de risinhos que já não faziam sentido naquela idade. Disseram-lhe que se calasse senão o pai natal não aparecia. A menina insistia, desta vez com o braço esticado e o indicador apontado à janela da sala.

Lá fora estavam três vultos. Assustada, a mais velha avisou a família num soluço histérico. “Deve ser a Diamantina com o arroz doce”. Aproximaram-se da janela três sujeitos altos de t-shirt azul. Em cada uma a palavra e-bay estampada a amarelo. O jantar entrou em stand-by enquanto os sujeitos ocuparam a sala com um sorriso de plástico. “ É a família A.?” “Sim senhor, que rima com peida” explicou o avô altivo. Os senhores começaram a ser interrogados pelos familiares curiosos e pediram silêncio. A pequenina ria-se. Segundo eles, a família Almeida tinha sido leiloada no e-bay há uma semana atrás e a empresa vinha reclamar cada um dos membros para que fossem entregues a quem os tinha comprado. A legalidade da operação estava assegurada por um livrinho que um deles trazia debaixo do braço. A família foi levada, a pequenina sorriu. O desejo de natal deste ano estava cumprido, ter os doces todos por conta dela e a possibilidade de poder, finalmente, abrir as prendas antes da meia-noite.


publicado por José às 20:10
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Segunda-feira, 3 de Janeiro de 2005
...
Numa tarde de verão, sentado nuns estofos quentes, pretos, de napa com costuras de alto a baixo, as pernas ainda não chegam ao chão e a paisagem passa em silêncio. Surgem as perguntas parvas: será que o carro está parado e tudo o que está à volta é que se move? Que giro, será que é possível? E quando é que chegamos? Ainda me lembrava da última vez que lá tínhamos ido. Era um sítio com muitos cheiros e pessoas atarefadas, a falar ao telefone, a transportar sacos, a guardar dinheiro na caixa registadora, a meterem-se comigo, a rirem com o meu avô. Passámos por uma ponte, ou ela passava por nós ou fosse o que fosse e isso significava que estávamos a chegar. A planície lá fora amarela, os bois, os touros, as vacas, todos a olhar para nada com muita atenção. O meu tio mete uma mudança, fixo o olhar na bola preta com o H, polida, luzidia, da mesma cor do volante. Acende-se a luz verde comprida com as setas brancas, viramos à direita. Entrámos na cidade, os bois desapareceram, estamos a chegar à loja dos pós coloridos, das alpistas, dos frascos cheios de formas, das armadilhas de bichos e das gaiolas para os meter lá dentro, dos pássaros de todos os feitios e dos palermas dos ratos sempre a correr na roda. O carro parou. É do outro lado da rua, é já ali. O meu tio estica-me a mão para atravessar a estrada, grande e a apertar com força. Os mais velhos não têm noção das coisas. Com quatro anos sei muito bem atravessar a estrada sozinho, basta correr depressa para chegar lá num instante. Já devia era estar a ver os bichos que chegaram. A corrida durou pouco, o embate foi indolor. Não houve flashbacks, nem túneis escuros com luz nem visões do meu corpo, lembro-me das pessoas tristes quando abri os olhos, das prendas, da cara a arder cheia de éter, da minha mãe e da minha avó, do gesso e da comichão insuportável, do sapo cocas pendurado no tecto por uma mola a andar para cima e para baixo mas não me lembro onde é que fica a loja, nem como é que se vai para lá, nem se ainda tem as cores e o cheiros, nem se as pessoas que lá trabalhavam ainda trabalham ou sequer se estão vivas. Era giro, aparecer por lá um dia destes.


publicado por José às 20:58
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Quarta-feira, 22 de Dezembro de 2004
Número 6
-Número 9!

-Bom dia

-Isto não é 9, é 6. Faça o favor de voltar para a fila.

-Não, não. É 9. O 6 já passou, o último q atendeu era o 8, portanto isso só pode ser 9.

-Desculpe. Isto que eu tenho aqui na mão é 6.

-Não. Não é. É 9. É O NÚMERO 9 minha puta do caralho. Não vê q está ao contrário?

-Nesse caso em que é que posso ajudar?

-É o seguinte: eu quero comprar um T2 em alfama e vim aqui à fundação da ciência e não sei quê para saber qual o tipo de bolsa que se adequa mais à minha situação.

-O banco já fez a estimativa do imóvel?

-Sim, estimou-o em bué dinheiro.

-Nesse caso aconselho-o a concorrer a uma bolsa de doutoramento e a pensar seriamente em continuar para pós-doc de preferência antes que a primeira acabe.

-Mas ainda não tenho mestrado.

-Isso não oferece qualquer tipo de problema.

-Também não tenho licenciatura.

-Isso pode levar a um atraso mas não tem sido problemático.

-Tem que ser doutoramento? Tinha pensado antes num mestrado de 3 anos.

-Sabe o que é o spread?

-Já ouvi falar mas não sei muito bem.

-O spread é uma coisa de cor indefinida que pode crescer ou diminuir, é como um vírus em constante mutação.

-Mas é o quê, ao certo?

-É uma coisa de cor indefinida que pode crescer ou diminuir, como um vírus em constante mutação.

-Ok. Portanto é mau.

-Disse-me que a sua casa estava avaliada em...?

-Bué dinheiro.

-Nesse caso o spread é um grande problema. Confie em mim, deve mesmo concorrer a doutoramento.

-Tenho que preencher muitos papéis?

-Não. Basta querer muito e pensar muitas vezes na bolsa durante todo o dia, enquanto trabalha, conduz, enquanto fala com as pessoas. Se pensar muito muito é aceite e recebe um contrato em casa para assinar.

-A sério?

-Claro que não. Ah! Uma coisa importante. Já tem orientador no estabelecimento de ensino superior onde pretende tirar o grau?

-Já falei com um professor.

-E?

-Não gostou da localização da casa e fartou-se de dizer mal dos acabamentos.

-Só contactou com um docente?
-Não, ontem tive uma reunião com um catedrático de estatística completamente Feng Shui.

-Paneleirices...

-Pois. É tão difícil achar um catedrático com um sentido de decoração apurado. A verdade é que me sinto um bocado perdido. Já passei um bocado aquela fase do minimalismo escandinavo. Gostava de explorar outras coisas, de uma forma equilibrada...

-Mas Feng Shui não.

-Foda-se, isso é que não. O problema é que gosto de tudo, design italiano kitsch dos anos 80, pop, arte nova, bauhaus, barroco, até arte sacra eu aguento, veja lá.

-Ffffffffffff. Mas estamos a falar de um T2, não se esqueça. De repente começo a achar que devia pensar em dois doutoramentos.

-Não consigo, sou muito estúpido.

-Tente lá.

-Tá bem

-Então?

-Não. Não consigo.

-Nesse caso vou dar-lhe o contacto de um professor que está a fazer uma tentativa muito séria de unir todas as tendências da decoração.

-Tipo teoria unificadora?

-Tipo isso. É assistente em física teórica. Aqui tem.

-Obrigado. Podia então dar-me os papéis?

-Posso mas não dou.

-Não dá?

-Só se me der um beijinho.

-Façamos assim, dou-lhe dois e assinamos já o contrato.

-Combinado.


publicado por José às 15:05
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Segunda-feira, 20 de Dezembro de 2004
Cimento
Os vazios começaram a ser cheios com cimento. Já não é preciso conhecer pessoas novas. Não é preciso preocupar-me com as que sairam e deixaram os buracos vazios nem com as que querem entrar e preenchê-los. As coisas ficam bem resolvidas com cimento. É só encher até não caber mais. Quando secar poderei dizer com um sorriso nos lábios que podem confiar em mim porque sou uma pessoa sólida, cinzenta é verdade, mas com uma personalidade bem definida e concreta.


publicado por José às 11:57
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Terça-feira, 14 de Dezembro de 2004
O conto palerma que a certa altura começa a rimar.
Cada uma das penas estava arrepiada pelo medo. Uma mão apertava-lhe o pescoço e o coração batia a toda a velocidade. “Traga-me a faca, se faz favor”. As palavras sem significado aparente puseram a vizinha a andar, com dificuldade, a balancear-se de forma ridícula, como ele próprio, como um galináceo. Enquanto esperava pelo objecto, o carrasco aproveitava para trautear uma música estúpida. A mão apertava o pescoço com mais ou menos força ao ritmo do assobio. O coração prestes a explodir. A faca chegara. Era elegante. Era bonita. Era hipnótica. Acalmou-se. Gostava do objecto, sentia-se bem perto dele. A calma a que se submetera fez com que o carrasco tivesse que o agarrar de outra maneira. A vizinha ajudou. O carrasco escorregou. Caiu sobre a faca, já não se levantou. A inveja apoderou-se dele e o pânico também, fugiu depressa como ninguém. Comeu o milho que não pôde acabar. Foi para o poleiro com a faca sonhar.


publicado por José às 20:51
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